sábado, 2 de agosto de 2008

Loucura de amar - Ana Maria


Sangra em mim o fogo de amar
Amo-te como um pássaro ama o vento,
Como o navio deseja o mar!
Amo seu cheiro, nosso acasalamento.
Seu vigor, seu dormir e acordar.

Um sentimento desnorteante que declara
Loucura como a de um Van Gogh
Amor que ninguém jamais viveu
Nem o pintor, nem Julieta, e nem Romeu.

Amo-te sobre tudo que existe em mim
Amo-te sobre meu próprio ser, querido
Como o céu ama a estrela brilhante
Como a brisa, a relva ama
O amante, o cupido.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Pela luz dos olhos teus - Tom e Vinicius




Quando a luz dos olhos meus

E a luz dos olhos teus

Resolvem se encontrar

Ai que bom que isso é meu Deus

Que frio que me dá o encontro desse olhar

Mas se a luz dos olhos teus

Resiste aos olhos meus só p'ra me provocar

Meu amor, juro por Deus me sinto incendiar

Meu amor, juro por Deus

Que a luz dos olhos meus já não pode esperar

Quero a luz dos olhos meus

Na luz dos olhos teus sem mais lará-lará

Pela luz dos olhos teus

Eu acho meu amor que só se pode achar

Que a luz dos olhos meus precisa se casar.

Victor Hugo



Desejo primeiro que você ame,

E que amando, também seja amado.

E que se não for, seja breve em esquecer.

E que esquecendo, não guarde mágoa.

Desejo, pois, que não seja assim,

Mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos,

Que mesmo maus e inconseqüentes,

Sejam corajosos e fiéis,

E que pelo menos num deles

Você possa confiar sem duvidar.

E porque a vida é assim,

Desejo ainda que você tenha inimigos.

Nem muitos, nem poucos,

Mas na medida exata para que, algumas vezes,

Você se interpele a respeito

De suas próprias certezas.

E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,

Para que você não se sinta demasiado seguro.

Desejo depois que você seja útil,

Mas não insubstituível.

E que nos maus momentos,

Quando não restar mais nada,

Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante,

Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,

Mas com os que erram muito e irremediavelmente,

E que fazendo bom uso dessa tolerância,

Você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você, sendo jovem,

Não amadureça depressa demais,

E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer

E que sendo velho, não se dedique ao desespero.

Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e

É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

Desejo por sinal que você seja triste,

Não o ano todo, mas apenas um dia.

Mas que nesse dia descubra

Que o riso diário é bom,O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

Desejo que você descubra ,

Com o máximo de urgência,

Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,

Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

Desejo ainda que você afague um gato,

Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro

Erguer triunfante o seu canto matinal

Porque, assim, você sesentirá bem por nada.

Desejo também que você plante uma semente,

Por mais minúscula que seja,

E acompanhe o seu crescimento,

Para que você saiba de quantas

Muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,

Porque é preciso ser prático.

Eque pelo menos uma vez por ano

Coloque um pouco dele

Na sua frente e diga `Isso é meu`,

Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

Desejo também que nenhum de seus afetos morra,

Por ele e por você,

Mas que se morrer, você possa chorar

Sem se lamentar esofrer sem se culpar.

Desejo por fim que você sendo homem,

Tenha uma boa mulher,E que sendo mulher,

Tenha um bom homem

Eque se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,

E quando estiverem exaustos e sorridentes,

Ainda haja amor para recomeçar.E se tudo isso acontecer,

Não tenho mais nada a te desejar.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Sopro - Ana Maria


Teu sopro ao sussurrar-me
Envereda pelas entranhas
Cruza meu corpo
Num crispar ligeiro
Desperta-me
Alerta-me inteira
Faz-me em pedaços
Descompassa o peito
Minguam meus gestos
Provoca suspiros
Teu sopro tão tênue
Ingênuo martírio

Vem, sussurra teu nome
Me põe num abraço
Tortura minha boca
Partindo-me em mil
Martírio indolente
Aragem mística
Vento brisante

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Tropeços - Ana Maria



Lapidando sombras
Em caminhos
obtusos
Desvendando senhas
Segredos
Revelando sonhos
de noites
escusas
Rebelando sentidos
Doces amores
que escaparam
de mim...

Adeus! - Ana Maria


Permaneces
intacto
apesar de tudo
Vi passar
o tempo
e tua falta
mantivestes em mim
Lutei para
desguardar-me
de sua lembrança
Voei por outros
Sonhos estranhos
Desnudei-me
Desfiz-me
E voltei
para certificar-me
de que
sua ausência
está presente
em mim...

Erotismo - Ana Maria


Anônimos gestos
Preces hereges
Formas turvas e
Desejos confessos
Segredos latentes
Em noites lilases
Sem lógica do tempo.
Bocas lascivas
Avesso de nós.
Mãos imprecisas
Embaixo de nós.

Proposta indecente - Ana Maria



Beija-me
com a urgência
de sua fúria
Afasta-me
de mim para fazer-me
sua
Plena de amor.
Desgoverna-me.

Entrego-me
à sua descoberta
Desvenda
os caminhos
do meu corpo
Inventa pudores
que me detenham
Inaugura
seus rumos
Inebria-me
de perfume
Faça brotar
flores
Seixos
no sal áspero
Dizer palavras
não ditas
Imprimir
marcas na sua pele

Sustenta-me
no seu corpo
Deixa-me deslizar
no seu suor
Ao teu sabor
Ao teu calor
Cala
minha boca
na tua
Cola
seus lábios
nos meus
Que entrego
minhas esperas
Ancoro
meu corpo no seu...

Rompimento...- Ana Maria



Saímos incólumes
de nós mesmos
Desde que habitamos
nossos corpos
Que nos misturamos
aos nossos sabores
Que nos umedecemos
de nossos amores

Saímos ilesos,
um do outro
Desde que nossas bocas
apaixonaram-se
Que nossas mãos
ataram-se a passear juntas
Que nos fechamos na alcova
sem culpas

Recuperando-me... - Ana Maria




E como
a folha lida,
abandonada
eu fui
Descartada
do tempo,
esquivada
da vida.

Outros olhos
os seus miravam
Enquanto
os meus
Choravam amiúde
O passado
que guardavam.


Não volte
Não volte
Este coração
Que já esteve
apaixonado
Se recupera
Lentamente
De estar
Desamparado...
Não volte
.

Permita-se! - Ana Maria


Tua
calma é
meu abrigo.
Teu
delírio
meu anseio.
Teus dentes
em mordidas
frementes
sangrando
minha carne
meu desejo.
Não conspire
contra esse
peito que de
sobressaltos
arrítmicos
está cansado.
Permita-se!

Quero o seu
cansaço
Seu laço branco.
Quero seus
pedaços
Ondas
de seu flanco.
Seu eco.
Seu silêncio.

Para ser sua - Ana Maria




Risquei de unhas
suas costas
Sangrei meu destino
no seu
Rompi templos
Seitas
Abri entranhas
Destilei veneno
Desabei em lágrimas
Na sua boca
Resistimos às
tempestades
De estrelas cadentes
Nos perdemos
nas trevas

Atei meus olhos
Minhas mãos
Acorrentei-me em você
Rompi laços antigos
Abri meu peito
Para ser sua

Inteiramente sua...


Paixão adolescente - Ana Maria


Fico aqui a observar
seu rosto
Na ingenuidade apaixonada
da adolescência
O deleite de poder te olhar
apenas
Arremesso-me mil vezes
em sua direção
E, estancada permaneço
a te olhar apenas...


Tímida,
detenho meu sorriso
Com medo
que goste de mim
Descolo-me
e fico de longe
A te olhar os detalhes.


Seu riso frágil
e brando
Seu olhar morno
e acalantador.
Cada poro seu me apaixona...

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Delírio - Ana Maria


Indecentes suspiros

Rugem ofegantes

De minha pele eriçada

Fragmentos de amor vadio

Açoitada pela boca fremente

Impregnada de tua saliva

Abandono-me aos teus

Sentidos

Incendeia-me o ventre

Arrebata-me

Reiventa-me.

Tua boca adormecida - Ana Maria


Minha boca
quer a tua,
mas a tua descansa.
Observo a forma
Um beijo desejo
Mas ela repousa.
Ingênua e pura,
tua boca de fogo
Carnuda
e nua
m’afugenta
Quando
distraída movimenta...

Tua boca
m’assusta
m’enlouquece,
m’aguça.
Mesmo quando
dorme
ela me
afronta
m’excita,
e amedronta...

Do que preciso...- Ana Maria



Preciso do pungente laço
que me prende
De sua fúria noturna
que me inunda
Sua força em brasa ardente
que me domina
Ser agraciada
com seu rugido prazeroso

Seu óbvio calor ofegante
que me rende
Preciso de você inteiro
sem medo
Transbordando meus olhos,
meu colo
Habitando meu corpo,
meu deserto,
meu covo

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Sonho - Ana Maria


Riso ciciante
que empunhas
Cercando-me
Algemando-me
com encantos
Transbordando
de silêncio
minh’alma
inocente

Azulastes
meus olhos
foscos
Desconstruístes-me
Tragastes
de meu ar
Revelastes
segredos
Entornastes
ondas
Confessastes, meu
Ficastes
em mim...

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Tatuagem - Chico Buarque


Quero ficar no teu corpo feito tatuagem
Que é pra te dar coragem
Pra seguir viagem
Quando a noite vem
E também pra me perpetuar em tua escrava
Que você pega, esfrega, nega
Mas não lava

Quero brincar no teu corpo feito bailarina
Que logo se alucina
Salta e te ilumina
Quando a noite vem

E nos músculos exaustos do teu braço
Repousar frouxa, murcha, farta
Morta de cansaço

Quero pesar feito cruz nas tuas costas
Que te retalha em postas
Mas no fundo gostas
Quando a noite vem


Quero ser a cicatriz risonha e corrosiva
Marcada a frio, e ferro e fogo
Em carne viva

Corações de mãe
Arpões, sereias e serpentes
Que te rabiscam o corpo todo
Mas não sentes

Tarde demais... - Ana Maria

Tarde demais..
Para
conhecer alguém
tão especial
como você.
Tarde demais
para se fazer
planos.
Tarde demais
para se fazer ninho...

Não,
não deve ser ...
Não deve ser
tarde demais para
fazer sonhos...
Não é tarde para
sentir
Nem para se
emocionar.
Não,
não é tarde para
querer.
Nem para ouvir.
Não,
nem para
desejar
Nem para
ofegar...
Muito menos para
viver...

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Amor a primeira vista - carta - Ana Maria


Impressionante foi aquele momento! Bastou meus olhos depararem com você e eles congelaram na imagem. Havia tanta gente naquela festa e apenas você me despertou a atenção.



De longe admirava seus gestos, suas mãos que falavam tanto quanto sua boca. Tive vontade de ouvi-las, as mãos e a boca. As mulheres te cercavam e eu à distancia me sentia bem perto. Não saberia te dizer ha quanto tempo já o observava, nem saberia como parar de fazê-lo.




Até que um certo descuido fez com que você me visse te olhando. Vi nos seus lábios um convencido sorriso branco. Depois voltou-se para suas amigas e seus gestos pareciam ainda mais vigorosos. Não por muito tempo. Sua curiosidade o fez voltar-se para meu olhar novamente, e de novo me mostrou seu melhor sorriso, mais amplo, mais aberto, mais completo. Meu coração se envaideceu e pulou de alegria. Meus olhos insistentes não estavam satisfeitos, pediam para ver os seus bem de perto.




Outra vez você me olhou, agora mais atento ao meu interesse, mais completo. Vi você se distanciando de sua turma e se aproximando de mim, sempre sorrindo. Havia um ar de timidez que você explorava com sedução. Agarrei-me ao balcão mais próximo e esperei. Seu corpo em movimento contínuo cada vez mais perto, me apaixonava. Ha uma pequena distânicia conseguia ver seus olhos olhando para os meus. Conversavam já um assunto íntimo, antes de nos falarmos.




Espreitei cada movimento, até poder notar seus lábios umidos se apertarem antes de dizer-me seu nome. Não me lembro de ter dito o meu, mas sua voz ficou impregnada em mim. O toque de sua mão ao me cumprimentar me fez corar. Naquele momento tive certeza de você era o homem da minha vida. Não sei mais nada daquela festa. Me lembro vagamente dos anfitriões. Nunca me esqueci sua atitude gentil em me levar para casa, embora soubesse que essa gentileza era para poder ficar comigo à sós, fiz de conta que não percebi nada pois também era a minha intenção.


O nosso primeiro encontro. Um encontro para sempre.