sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Sonho - Ana Maria


Riso ciciante
que empunhas
Cercando-me
Algemando-me
com encantos
Transbordando
de silêncio
minh’alma
inocente

Azulastes
meus olhos
foscos
Desconstruístes-me
Tragastes
de meu ar
Revelastes
segredos
Entornastes
ondas
Confessastes, meu
Ficastes
em mim...

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Tatuagem - Chico Buarque


Quero ficar no teu corpo feito tatuagem
Que é pra te dar coragem
Pra seguir viagem
Quando a noite vem
E também pra me perpetuar em tua escrava
Que você pega, esfrega, nega
Mas não lava

Quero brincar no teu corpo feito bailarina
Que logo se alucina
Salta e te ilumina
Quando a noite vem

E nos músculos exaustos do teu braço
Repousar frouxa, murcha, farta
Morta de cansaço

Quero pesar feito cruz nas tuas costas
Que te retalha em postas
Mas no fundo gostas
Quando a noite vem


Quero ser a cicatriz risonha e corrosiva
Marcada a frio, e ferro e fogo
Em carne viva

Corações de mãe
Arpões, sereias e serpentes
Que te rabiscam o corpo todo
Mas não sentes

Tarde demais... - Ana Maria

Tarde demais..
Para
conhecer alguém
tão especial
como você.
Tarde demais
para se fazer
planos.
Tarde demais
para se fazer ninho...

Não,
não deve ser ...
Não deve ser
tarde demais para
fazer sonhos...
Não é tarde para
sentir
Nem para se
emocionar.
Não,
não é tarde para
querer.
Nem para ouvir.
Não,
nem para
desejar
Nem para
ofegar...
Muito menos para
viver...

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Amor a primeira vista - carta - Ana Maria


Impressionante foi aquele momento! Bastou meus olhos depararem com você e eles congelaram na imagem. Havia tanta gente naquela festa e apenas você me despertou a atenção.



De longe admirava seus gestos, suas mãos que falavam tanto quanto sua boca. Tive vontade de ouvi-las, as mãos e a boca. As mulheres te cercavam e eu à distancia me sentia bem perto. Não saberia te dizer ha quanto tempo já o observava, nem saberia como parar de fazê-lo.




Até que um certo descuido fez com que você me visse te olhando. Vi nos seus lábios um convencido sorriso branco. Depois voltou-se para suas amigas e seus gestos pareciam ainda mais vigorosos. Não por muito tempo. Sua curiosidade o fez voltar-se para meu olhar novamente, e de novo me mostrou seu melhor sorriso, mais amplo, mais aberto, mais completo. Meu coração se envaideceu e pulou de alegria. Meus olhos insistentes não estavam satisfeitos, pediam para ver os seus bem de perto.




Outra vez você me olhou, agora mais atento ao meu interesse, mais completo. Vi você se distanciando de sua turma e se aproximando de mim, sempre sorrindo. Havia um ar de timidez que você explorava com sedução. Agarrei-me ao balcão mais próximo e esperei. Seu corpo em movimento contínuo cada vez mais perto, me apaixonava. Ha uma pequena distânicia conseguia ver seus olhos olhando para os meus. Conversavam já um assunto íntimo, antes de nos falarmos.




Espreitei cada movimento, até poder notar seus lábios umidos se apertarem antes de dizer-me seu nome. Não me lembro de ter dito o meu, mas sua voz ficou impregnada em mim. O toque de sua mão ao me cumprimentar me fez corar. Naquele momento tive certeza de você era o homem da minha vida. Não sei mais nada daquela festa. Me lembro vagamente dos anfitriões. Nunca me esqueci sua atitude gentil em me levar para casa, embora soubesse que essa gentileza era para poder ficar comigo à sós, fiz de conta que não percebi nada pois também era a minha intenção.


O nosso primeiro encontro. Um encontro para sempre.




segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Amor adolescente - carta - Ana Maria


Era sempre verão aos vinte anos. Todos os dias pareciam ser ensolarados e todos os corações apaixonados. Naquela época não sabia escrever cartas de amor senão as faria aos baldes.

Havia um par de olhos que me engolia todos os dias no caminho para a faculdade e eu não me esquivava deles. Fitava-os quando ia e depois quando voltava. Parado à porta do café você me acompanhava com o olhar malicioso até a porta da escola. Era tão presente que até me sentia segura nessa trajetória. Nunca me dirigiu a palavra, nem me seguiu, apenas olhava.

Um dia resolvi sorrir-lhe e um riso tímido saiu de mim, e você o acolheu discretamente num outro tímido sorriso. Daí por diante todos os dias trocávamos esse riso pequeno mas que era imenso dentro de mim.

Até que lhe disse “oi” e você respondeu além de acenar para mim. Fiquei tão entusiasmada que passei a escrever bilhetes que não enviava. O ano acabou e vieram as férias. Sofri sua ausência nesse período mas tinha esperança de vê-lo de novo quando as aulas retomassem. Queria passar pelo café e deixar-lhe uma carta mas não tinha intimidade com as letras. E a quem destinatária tal carta?

Em março quando voltei às aulas vesti minha melhor roupa para vê-lo à porta, mas não o vi e fiquei aflita. Caminhei até a faculdade me sentindo sem chão. Como andar sem seu olhar a me seguir? Senti remorso por não ter parado e perguntado de você. Meu trajeto foi angustiante nesse dia. Mas quando cheguei à faculdade lá estava você à minha espera. Livros à mão, sorriso nos lábios, e brilho no olhar. Senti meu coração se encher de alívio. Agora estaríamos juntos pelo ano inteiro...

Namoro virtual - carta - Ana Maria


Copo na mão e pensamento absorto. Lá estava você num canto do balcão, calado, sozinho à espera de alguém. Preocupado com a aparência, vez ou outra ajeitava o paletó, os cabelos. Às vezes olhava para trás para certificar-se que sua companhia não chegara. Sobre o balcão o celular calado, e uma rosa vermelha cansada de esperar. Observei atenta seu rosto moreno, cabelos com gel penteados para trás, terno alinhado, sapatos limpos, um homem bonito e elegante. Tinha modos refinados e dava sinais de que a espera poderia valer à pena.


Dali de onde eu estava via com clareza seus movimentos e tive vontade de me aproximar. Mas temendo pelo impacto que causaria meu rosto, vacilei e desisti. Desisti, mas continuei te olhando de longe.


Já passava das dez quando decidi finalmente ligar para você. Vi a luz do seu telefone se acender e você se assustar ao ver meu número no visor. Pegou o aparelho rapidamente e sorriu ao dizer “alô”. Suas pernas estavam cruzadas e seu pé balançava no ar. Você parecia um namoradinho adolesceste enquanto falava comigo. Justifiquei minha ausência com uma notícia trágica e vi seu rosto entristecer ao aceitar minhas desculpas. De onde estava percebi que estava mais liberto depois do telefonema, pediu mais uma bebida ao garçom e passou a vasculhar a agenda telefônica. Certamente ligaria para um amigo ou amiga e combinaria de encontrar-se em algum lugar.
Nesse momento resolvi me dirigir até onde estava e menti de novo: “Marquei com uma amiga e não há mais mesas vagas, será que poderia espera-la aqui por alguns minutos?”. Você foi solicito e cavalheiro. Levantou para cumprimentar-me e me ofereceu uma bebida. Falamos de nossas vidas, de nosso trabalho, de nossa família, e bebemos muito. Ríamos o riso fácil dos embriagados e quase falamos de nossos amores, mas interrompi para ir ao banheiro. Lá dentro meu celular tocou e era você. Senti meu coração apertar e não atendi. Não sabia ao certo quem seria eu ao falar com você.


Demorei-me, me detive pensativa analisando o quanto estaria errando ao engana-lo. Resolvi então que lhe diria a verdade.

Quando voltei à mesa você já não estava mais....apenas a rosa vermelha e um curto bilhete num guardanapo: “Desde o inicio percebi tudo. Gostei mais da real do que da virtual. Você tem meu telefone. Com amor: Carlos Alberto”...

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Mensagem surpresa - carta - Ana Maria



Hoje me surpreendi com uma carta sua. Quando vi o subscrito confesso que senti o mesmo torpor que sentia antes quando recebia suas correspondências.

Meus dedos vacilaram diante de seu nome, e meu corpo me empurrou para dentro do texto.

Poucas palavras havia nela. Um sorriso espalhado pelo papel, como sempre houve. E uma frase, apenas uma. “Onde você está?”

Me deu uma louca vontade de escrever “Estou aqui onde sempre estive. Nunca saí daqui com medo de que você não me encontrasse mais”. E tive vontade de dizer outras tantas coisas que estavam por dizer desses anos todos que nos ausentamos de nós. Dizer que perdi o contato mas que tinha armazenado todas as mensagens que voltaram, e que agora as anexaria. Dizer da importância de sua existência, e dizer que quase enlouqueci enquanto esperava esta sua mensagem.

Mas não podia te encharcar de acontecimentos num retorno tão breve. Então respondi apenas: “estou te amando como sempre te amei, mas agora com saudade”, e anexei meu telefone.

Foi há 3 horas, e já estou ansiosa pela resposta...

Sinto sua falta - carta - Ana Maria


Eram tão intensos nossos momentos!

Começavam na expectativa de nosso encontro, nos telefonemas que trocávamos, e na ansiosa espera pelo momento de te ver.

Um turbilhão de sensações me entorpecia e num quase estado letárgico me deixava levar até você.

Diante dos seus magnéticos olhos não relutava, apenas me entregava aos sabores exóticos dos beijos que seus lábios me davam.

Abraços musculosos que me prendiam junto do seu corpo, e asseguravam que não nos separaríamos.

Palavras doces eram ditas, frases delicadas e apaixonadas, como num conto de fadas.
Muito riso, muito afago....pouco tempo.

Não havia mentiras entre nós, nem disfarces, apenas desejo. Apenas um querer descompromissado e forte que nos fazia refém um do outro. Deliciosamente reféns...
Acreditavamos que apenas o tempo poderia nos abater...

Ainda hoje depois de tanto tempo sinto sua presença, seu perfume, ouço sua voz.
Sinto sua falta.
Sinto saudade.

Até hoje vivo de nossas lembranças ... intensas lembranças.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Primeira vez que vi você - carta - Ana Maria


Não pude dormir aquela noite. Meu coração parecia exposto com excesso de ar dentro dele. Minhas pernas preguiçosas não obedeciam. Meus pensamentos teimavam em você.

Há tempos que me inquietava sua imagem desconhecida. Há tempos suas palavras me tocavam fundo e me enfraqueciam ao contradize-las. Há muito me engrandeciam suas
falas carinhosas e tantos elogios doces. Não consegui mais esquivar-me de você, ao contrário, te procurava ansiosa.

Tantos acontecimentos para guardar na memória...Tantas declarações tão fortes. Mas tem uma, entre tantas, imagem que ficou nítida como se ela se repetisse quando fico sozinha comigo mesma: Você chegando, timidamente, com um buquê de flores mistas nas mãos...Tinha um sorriso inseguro e gestos certeiros...E um beijo inesquecível!

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Cartas Trocadas - cartas - Ana Maria




Organizando velhos papeis deparei-me com um calhamaço de cartas com envelopes iguais.


Eram as suas cartas. Todas elas estavam ali me dizendo o que fomos um para o outro.


Fiquei surpresa de ver que eu ainda titubeava diante de suas palavras. Mesmo que elas estivessem dobradas numa folha de papel amarelecido pelo tempo.
Um pedaço da minha história estava ali guardado dentro de tantos envelopes. Foi assim que ficou nosso amor, fechado em cartas que escrevemos, e que às vezes nem enviamos.

Abri uma delas para me certificar de que o passado não me afetaria. Mas qual o que? Você estava lá me dizendo que minha voz te inebriava. Que meus passos mansos causavam ciúme em você. Que minha boca deveria calar para o mundo e falar apenas para você. Que seus sonhos eram todos com nós dois. Me lembro do que senti quando li esta carta e tive medo de ser eternamente prisioneira do seu coração. Talvez nesse momento nosso relacionamento tenha começado a perder o perfume...

E hoje estou aqui depois de tantos anos me torturando com a dúvida: Será que teríamos sido felizes se continuássemos?

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Revelação - Ana Maria



Os livros me dominavam, me enchiam as manhãs, me ocupavam as tardes e me insoniavam à noite. Era assim que vivia antes de sentir seu perfume. Minha vida era dedicada aos meus conhecimentos apenas. Eu não sabia que o que eu mais precisava conhecer, o sentimento mais nobre e mais forte que eu carregaria pelo resto de minha vida, não estava nos livros que eu folheava atenta. Não estava nos bancos das escolas, nem documentos que eu redigia com tanto prazer.

O resto de minha vida estava marcado com sua chegada. Flores nas mãos, sorriso encabulado, e luz no olhar. Era essa a imagem que ficaria para sempre comigo.

Carícias - Ana Maria


Isso, afaga meus olhos com os seus. Banha o meu olhar com seu sorriso. Diga palavras azuis com sons cor-de-rosa. Segura minha mão, aprisiona meu corpo no seu. E permita que sua respiração ofegue...
Ana Maria Maruggi

Um final de tarde especial - Ana Maria



Caminhávamos de mãos dadas pela rua molhada. Desafiávamos os passantes com nossos risos descomprometidos, com nossos abraços recheados de ternura. Ninguém naquele momento parecia amar alguém mais do que nós nos amávamos. Lembra disso? Lembra como seus olhos se perdiam nos meus enquanto falava do nosso futuro? Sua boca irrequieta se apressava em me prometer uma vida de amor e paixão. Lembra? Chovia a cântaros naquele final de tarde, e aquele foi o cenário que escolhemos para viver momento tão especial.


Sua mão apertava a minha. Sua voz estava trêmula. Um calor inexplicável andava pelo meu corpo. E as palavras não escolhidas chegavam lentamente aos meus ouvidos. Era a mais linda declaração de amor que uma mulher poderia ouvir!


A chuva estancou. Os ruídos cessaram, e apenas sua voz existia naquele instante. Um momento mágico. Uns riscos de água escorriam dos seus cabelos mas as palavras ainda chegavam ...lentas e mágicas...traduziam o amor que você sentia por mim, prometiam felicidade e paixão... lentas e mágicas palavras de amor...

Inesquecível final de tarde ...

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Ternas provocações - Ana Maria


Era o vento que brincava de espalhar seus cabelos no momento em que nossas bocas se beijavam na praia.
Era de novo o vento que, deliciosamente, balançava sua blusa branca mostrando de leve suas formas sob ela, me provocando.
E outra vez o vento sacudia sua saia tornando-a menina divertida diante do incontrolável.
Deslumbrado, até do vento tenho ciúme. Ele que te toca de maneira assintosa, te alegra, te refresca, te insinua. Queria ter o poder do vento para rodopiar no seu corpo e faze-la rir diante do meu deslumbramento. Jogar com seus cabelos, espalha-los, desnorteá-los. Bulir com suas roupas e invadir o que elas escondem.

E depois sair ileso tendo provocado em você emoções e sensações repentinas e incontroláveis.


domingo, 21 de outubro de 2007

Neruda falando sempre de amor






É assim que te quero, amor,

assim, amor, é que eu gosto de ti,

tal como te vestes

e como arranjasos cabelos

e comoa tua boca sorri,

ágil como a água

da fonte sobre as pedras puras,

é assim que te quero, amada,

Ao pão não peço que me ensine,

mas antes que não me falte

em cada dia que passa.

Da luz nada sei, nem donde

vem nem para onde vai,

apenas quero que a luz alumie,

e também não peço à noite explicações,

espero-a e envolve-me,

e assim tu pão e luz

e sombra és.

Chegastes à minha vida

com o que trazias,

feita

de luz e pão e sombra,

eu te esperava,

e é assim que preciso de ti,

assim que te amo,

e os que amanhã quiserem ouvir

o que não lhes direi, que o leiam aqui

e retrocedam hoje porque é cedo

para tais argumentos.

Amanhã dar-lhes-emos apenas

uma folha da árvore do nosso amor, uma folha

que há-de cair sobre a terra

como se a tivessem produzido os nosso lábios,

como um beijo caído

das nossas alturas invencíveis

para mostrar o fogo e a ternura

de um amor verdadeiro.


Pablo Neruda




Os teus pés


Quando não te posso contemplar

Contemplo os teus pés.


Teus pés de osso arqueado,

Teus pequenos pés duros,


Eu sei que te sustentam

E que teu doce peso

Sobre eles se ergue.


Tua cintura e teus seios,

A duplicada purpura

Dos teus mamilos,

A caixa dos teus olhos

Que há pouco levantaram voo,

A larga boca de fruta,

Tua rubra cabeleira,

Pequena torre minha.


Mas se amo os teus pés

É só porque andaram

Sobre a terra e sobre

O vento e sobre a água,

Até me encontrarem.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Paixão revelada - ANA MARIA



Impressionava-me o sentimento que de repente crescia em mim.

O que antes me parecia ser uma amizade comum agora se transformava num mar de paixão.
Como nunca havia percebido que você seria o homem da minha vida?
E pensar que tantas vezes deixava de lhe dar atenção devida, tantas vezes ignorava seus telefonemas, imaginava que seus bilhetes eram brincadeiras sem nexo. Tantos sinais, e eu não decifrava nenhum deles.
Que tola eu fui! Quase o perdi com o desdém que tinha sempre preparado para você.
Até que naquele dia uma mensagem sobre minha mesa me convidava para almoçar. Era anônimo o convite. Compareci ao endereço para satisfazer minha curiosidade, e lá estava você. Desta vez o enxerguei diferente, parecia até outra pessoa. Seus olhos me encararam inocentes e cativantes. Sentei-me ao seu lado e nesse momento lamentei ter perdido tanto tempo me esquivando de você.
Era o primeiro dia do resto de nossas vidas...



quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Olavo Bilac



Soneto 1

Talvez sonhasse, quando a vi. Mas via
Que, aos raios do luar iluminada
Entre as estrelas trêmulas subia
Uma infinita e cintilante escada.

E eu olhava-a de baixo, olhava-a...
Em cadaDegrau, que o ouro mais límpido vestia,
Mudo e sereno, um anjo a harpa doirada,
Ressoante de súplicas, feria...

Tu, mãe sagrada! vós também, formosas
Ilusões! sonhos meus! íeis por ela
Como um bando de sombras vaporosas.

E, ó meu amor! eu te buscava, quando
Vi que no alto surgias, calma e bela,
O olhar celeste para o meu baixando...




Olavo Bilac

Artur Azevedo - Musa Infeliz


Musa Infeliz

Todo o cuidado nestas rimas ponho;
Musa, peço-te, pois, que me remetas
Versos que tenham rútilas facetas,
E não revelem trovador bisonho.
Meia noite bateu. Sai risonho...
Brilhava - oh, musa, não me comprometas! -
O mais belo de todos os planetas
N'um céu que parecia um céu de sonho.
O mais belo de todos os prazeres
Gozei, à doce luz dos olhos pretos
Da mais bela de todas as mulheres!
Pobres quartetos! míseros tercetos!...
Musa, musa infeliz, dar-me não queres.
O mais belo de todos os sonetos!...

Artur Azevedo

Luis de Camões - Quem diz que Amor é falso ou enganoso...



Quem diz que Amor é falso ou enganoso,

Ligeiro, ingrato, vão desconhecido,

Sem falta lhe terá bem merecido

Que lhe seja cruel ou rigoroso.
Amor é brando, é doce, e é piedoso.
Quem o contrário diz não seja crido;
Seja por cego e apaixonado tido,
E aos homens, e inda aos Deuses, odioso.
Se males faz Amor em mim se vêem;
Em mim mostrando todo o seu rigor,
Ao mundo quis mostrar quanto podia.
Mas todas suas iras são de Amor;
Todos os seus males são um bem,
Que eu por todo outro bem não trocaria.